Sobre os começos
In medias res
O questionamento sobre fazer ou não fazer algo é tão perene, como disse na última postagem, quanto aquele sobre como começar.
Horácio, experiente em leituras e na vida, aconselha-nos a iniciar obras literárias com um acontecimento num ponto de tensão, antes da explosão que colocará em movimento o enredo. Assim, plantam-se potencialidades e suas causas tornam-se objeto da curiosidade.
Os grandes épicos mostram o acerto desse conselho; e a nossa vida, pois quem negaria que ouvir uma peripécia pela metade estimula o desejo de conhecer suas causas?
Adaptando esse preceito aos ensaios daqui, escreverei in medias res: a partir de experiências minhas com obras, e não pela exposição prévia dos fundamentos filosóficos dos objetos com que trabalho. A alguns, faltarão referências, a outros, pressupostos; a todos, disponho-me a indicar leituras para aprofundamento quando surgir interesse, especialmente em filosofia da educação, objeto de minha pesquisa de doutorado.
Voltando aos inícios, o tema deste ensaio advém de passagens magistrais do primeiro grande épico ocidental, a Ilíada, obra que releio nesses dias.
Parto do suposto de que sua linha condutora são as causas e as consequências da ira de Aquiles. Ela nasce de uma escolha existencial do herói: vida curta, mas glória eterna pelos feitos; e tudo o que o afasta dessa via é combatido. Embora a honra devida à grandeza do herói seja central à obra, também o é a formação do seu caráter.
Essa palavra tão repetida em nossos dias me chamou atenção durante o mestrado, quando li um comentário à Ética de Aristóteles, pois provavelmente provém de um verbo grego cujo significado é gravar, entalhar, estampar. De fato, o caráter de cada um se forma pelo que é esculpido na alma. O como esculpir e o que esculpir constituem nosso conhecimento, artístico e científico, e nosso modo de agir em determinadas circunstâncias, virtudes e vícios.
O ideal de formação varia, em maior ou menor grau, entre civilizações, embora conserve pontos de encontro, pois a natureza humana não muda.
Uma das primeiras imagens da educação, se não a primeira, é apresentada pelo mestre de Aquiles, Fenice ao mencionar que o pai do herói, propôs-lhe que ensinasse ao filho “como dizer bons discursos e grandes ações pôr em prática” (IX, 443).
Além disso, a tradição literária conta que houve também outro pedagogo na vida do Pelida, Quíron, o centauro, que lhe ensinou a arte da medicina, a da música; na Ilíada, isso é ressaltado em referências ao conhecimento medicinal e musical de Aquiles.
De algum modo, os elementos que formam o caráter de Aquiles são apresentados como os bens conquistados (se é que posso usar esse verbo aqui) pelo homem ideal, os quais seriam tais: saúde física; a adequação do estado de ânimo às circunstâncias pela música; luta; convencimento; e ação orientada ao justo meio (acrescentaria, ainda, um conhecimento nutricional, especialmente se se considerar o episódio da Odisseia em que o “whey” é mencionado (v. XVII, 225).
Antes da educação apresentada na República de Platão, obra pedagógica por excelência, há um começo no meio de tantos acontecimentos da Ilíada, que nos expõe um ideal de excelência humana e vias de formação para alcançá-lo. É uma chave de leitura, parece-me, para entender a justa glória devida a Aquiles, bem como as consequências, por vezes extravagantes, de seu ímpeto.
Aqui está um começo sobre o tema da educação nas grandes obras, não desde o princípio, mas próximo à tensão central do poema. Seguindo Horácio, parece ser um ponto de partida interessante.
E, no entanto, nada disso se compara à obra do próprio Homero. Se ainda não a conheces, toma-a e lê.
Até o próximo texto.
Sobre a Ilíada, também gravei o seguinte vídeo:
E sobre como ler melhor os clássicos literários:

Continue com o ótimo trabalho! O senhor estava no projeto BRILHA, não? Lembro de ver o senhor no grupo do whatsapp.