Eloquar an sileam?
(Falarei ou me calarei?)
Cercado por costumes estranhos e hostis, numa terra extensa e bela, ouvindo sussurros e gritos por vezes incompreensíveis, José decide escrever na areia: um pedido de ajuda à mãe e um meio de não ceder ao temor.
Começa com uma interrogação retórica extraída da Eneida, as palavras do título, mas a transforma em dúvida verdadeira, pois, da mais alta criatura de Deus, as demais não podem aproximar-se com pés sujos nem com línguas e penas indignas. Retornando aos seus, nosso escritor termina um extenso poema à Virgem Maria, e não sem outras referências às grandes obras que traz no coração.
O prisioneiro dos tamoios foi canonizado e marcou o povo brasileiro com seu exemplo: tornou-se São José de Anchieta, cujo ímpeto missionário, piedade e erudição refletem a máxima de vida inaciana ad maiorem Dei gloriam.
A hesitação do eloquar an sileam é mais perene que o bronze; ao retirar da alma as impressões que trazemos, inumeráveis podem ser as consequências: palavras capazes de grande júbilo ou mágoa, união de corações ou discórdia, ensino ou perda de tempo. Por isso, em geral, tendo a calar-me.
Contudo, pela constante transferência aos textos do que viu e viveu, um homem como Horácio – e César – venceu a devoradora sucessão do tempo e legou-nos um monumento literário mais alto do que as pirâmides e do que qualquer arranha-céu.
É bem verdade, também, que viajamos, ao longo dos últimos séculos, para tão longe dos escritores clássicos. A grandeza de um objetivo, porém, não deve paralisar-nos na busca, mas desafiar-nos a alcançá-lo.
De minha parte, estarei satisfeito se meu trabalho servir para conduzir os amantes da sabedoria àquelas fontes, mais esplêndidas que o vidro, donde jorra a sabedoria desejada por nossa natureza.
Participar do banquete em que os grandes autores conversam entre si é o meio pelo qual o espírito humano se prepara para alçar voo em direção à Verdade, aonde devemos ir para repousar com gáudio. São José não abandonou o dom recebido dos autores: incorporou-o à vida.
Por isso volto a escrever e a falar-lhes aqui sobre os passos que dei, dou e darei na subida ao Monte Parnaso, quiçá haja neles algo digno também da Jerusalém eterna.
Os ensaios tratarão do que estudo e faço: educação clássica, filosofia, artes liberais, latim.
Espero tornar esta fala um diálogo com quem lê.
Eloquar et audiam.

